
Na Edição Especial da Revista Sábado, Mia Freitas partilha como os proprietários podem rentabilizar os seus espaços através de alugueres para filmagens, sessões fotográficas e eventos. Conheça a entrevista na íntegra:
Existem muitas pessoas a quererem arrendar a casa para produções? Motivos?
Existem, sendo o motivo principal, claro, o financeiro. Alugar a casa para filmagens, sessões fotográficas ou eventos pode ser muito atrativo em termos financeiros e esse é o principal motivo que atrai proprietários até nós. Mas é surpreendente perceber que, ao contrário do que se possa pensar, quem nos procura maioritariamente são proprietários com um nível de vida confortável, acima da média, e que pretendem alugar as suas casas particulares para este fim. Claro que estas propriedades têm custos de manutenção muito elevados, mas é sempre muito engraçado perceber que também há uma certa vontade e orgulho em mostrar as suas casas e partilhar essa amostra das suas vidas e do seu gosto pessoal com o mundo.
Esta tendência está relacionada com o mercado imobiliário?
Não de forma direta, até porque o objetivo não é a rentabilização clássica, mas sim uma oportunidade complementar. Os proprietários com quem trabalhamos não estão necessariamente à procura de arrendamentos de longa duração, mas sim de formas pontuais e flexíveis de rentabilizar os seus ativos.
Por mês, quantos pedidos e e-mails recebem de pessoas interessadas em disponibilizar a casa para este fim?
Depende bastante do mês. Este mês, por exemplo, já recebemos cinco candidaturas. E isto sem estarmos ativamente à procura ou em campanha. Muitos proprietários encontram-nos através de pesquisas no Google, mas existe também um forte efeito de recomendação. Por exemplo, há muito pouco tempo, registaram-se três propriedades da mesma rua num curto espaço de tempo. Claramente que os proprietários conversaram entre eles sobre a nossa empresa.
Quais os requisitos mínimos da casa? Ou prédio? Tetos altos? Iluminação?
Embora qualquer espaço possa, teoricamente, fazer sentido, porque as produções podem necessitar de qualquer tipo de espaço - até do mais feio e cru, nós solicitamos que sejam:
Mas cumprindo, idealmente, estes requisitos base, agenciamos todo o tipo de espaços, desde moradias de luxo a armazéns vazios.

Qual é a tabela média de preços por dia?
Os valores variam consoante o tipo de espaço, localização e características estéticas, mas também consoante o tipo de produção e a vontade do proprietário. De forma geral, os valores começam nos 500€ por dia para apartamentos mais simples, e chegam aos 5000€ ou mais por dia no caso de propriedades muito exclusivas.
Estes valores também dependem do orçamento da produção?
Dependem do tipo de produção. Se for uma sessão fotográfica, os valores geralmente são mais baixos do que se for uma filmagem. O número de pessoas na equipa também é um fator que influencia o preço. Uma produção com uma equipa de cinco pessoas não deve custar o mesmo que uma produção com uma equipa de trinta, porque o risco associado ao aluguer difere muito. Mas jogamos com muitos fatores, incluido as exigências dos proprietários. Alguns preferem trabalhar com um valor fixo, sejam as produções de que tipo forem.
O que torna uma casa comum num "set" extraordinário?
Às vezes o que as produções procuram é mesmo uma casa comum. Não tem de ser extraordinário, sempre. Outras vezes com pouco, faz-se muito: pode ser uma parede de livros, uma sala com umas janelas de alto a baixo, ou uma cozinha com uma boa ilha; depois cabe ao espectador imaginar o resto, o que está à volta. E depois há casas que são, por si só, um set extraordinário. É escolha do cliente utilizar as casas tal como estão ou adaptá-las à narrativa: isto pode incluir, por exemplo, a remoção de móveis. É todo um trabalho do departamento de arte que ajuda o espaço a dar vida à narrativa e às personagens.
Se for num prédio, pagam ao condomínio? Quanto? Como funciona?
Não temos conhecimento que os proprietários paguem um valor aos condomínios quando alugam os seus apartamentos, até porque não costuma haver utilização dos espaços comuns dos prédios. Mas sugerimos sempre que os vizinhos sejam avisados, especialmente em produções de maior dimensão e que poderão causar alguma disrupção.
Pode partilhar um exemplo de um hall de entrada que alugaram?
Temos dois exemplos de halls de entrada, ambos em Lisboa, mas tratam-se de edifícios cujos proprietários detém a totalidade dos ativos, o que simplifica bastante o processo.
Qual é o nível de alteração permitido na decoração?
Geralmente é dada bastante flexibilidade ao cliente para alterar o que pretender na propriedade que está a alugar, com a garantia de que tudo é reposto ao estado original no final. Faz parte do nosso trabalho preparar os proprietários para essas alterações temporárias e garantir que todo o processo decorre com segurança. Ainda assim, é pouco comum que ocorram alterações muito significativas, como a substituição de mobiliário em grande escala. E claro que cada proprietário é livre de impor as suas regras e limitações, que ficam sempre estipuladas em contrato.
Quais são os horários típicos de filmagem?
O mais habitual são alugueres de oito a dez horas. Mas também temos alugueres de meios dias, até às cinco horas de utilização.
Com que frequência recorrem a este tipo de serviços?
Com muita frequência. Tirando as telenovelas, que são produções de longa-duração para as quais compensa construir os próprios cenários, a maioria das produções necessita de espaços.
É fácil negociar com os moradores?
Muito fácil. Nós deixamos bem claro que o controlo nunca lhes é retirado. Sugerimos valores com base na nossa experiência na indústria audiovisual, mas a decisão final é sempre do proprietário.
Faz-se um contrato? O que contempla?
Sim, cada aluguer é formalizado através de um contrato onde estão estipuladas, para além das informações sobre o projeto, a data, os horários e o valor, outras condições importantes que visam proteger tanto o cliente como o proprietário, como, por exemplo, a política de cancelamento, o nível de flexibilidade para alterações no espaço e o procedimento em caso de danos.
Porque optam por alugar estes espaços? É mais fácil? Mais económico? Quanto poupam?
Porque precisam de espaços para as suas narrativas. A alternativa seria a construção dos cenários, uma opção muito mais dispendiosa; ou a utilização de tecnologia para os recriar. A opção que melhor serve o projeto é o aluguer do espaço, pela sua autenticidade.
É mais frequente solicitar estes espaços para que tipo de produções?
Cinema, publicidade, videoclipes, conteúdos para as redes sociais, eventos de ativação de marcas, e até casamentos!
